Desde tempos imemoriais, os grupos humanos tem criado heróis para neles projetarem os seus ideais e valores, fundamentar a sua existência e problematizar a sua estrutura ética. Desde o semi-deus antigo ao herói urbano pós-moderno, as configurações histórico-culturais da figura heróica apresentam-se múltiplas e variadas. Há heróis e heroínas míticos, trágicos, cómicos, épicos, romanescos, picarescos, clássicos, tradicionais, modernos, contemporâneos, anti-heróis, super-heróis. O herói tem mil caras.
Esta diversidade não impediu porém o reconhecimento de uma estrutura ou morfologia invariante - o monomito, o arquétipo ou o mitologema heróico -, determinada em grande parte pela função do herói nos mitos: fundador e transgressor, ele ou ela instaura a ordem humana pela rutura com a ordem divina. O herói mítico, que se situa para lá da lei e da ordem que fundou, constitui a referência e a medida das tipologias heróicas e assim todo o herói preserva algo deste modelo: mediador entre ordem e contra-ordem, caracteriza-se por uma atitude de denegação em relação à lei e ao poder (age ao seu serviço mas simultaneamente excede-os).
Desta denegação derivam o seu hibridismo e liminaridade, as suas deslocações entre dois mundos (o dos vivos e o dos mortos, o do sonho e o da realidade, o dos civilizados e o dos selvagens). O herói é essencialmente aquele ou aquela que se expõe ao que advém (advenire, a(d)ventura), que está disponível para o encontro (ou encontrão) com a alteridade radical, a procura de uma dimensão perdida, material e/ou imaterial, a mutação da identidade e/ou a transformação do mundo.
Dissidente, desertor, mestiço, pirata, missionário, repórter, viajante, sedutor, detetive, explorador, arqueólogo, justiceiro – estas e outras figuras heróicas encontram-se, no masculino e no feminino, em mitos, contos, romances, teatro, cinema, banda desenhada, vídeo-jogos. Neste colóquio, queremos analisar e discutir estas e outras figuras em textos e suportes vários, através de diferentes abordagens (inter)disciplinares (narratologia, estudos sobre o imaginário, estudos culturais, psicanálise, estudos intermediais, neo-comparatismos, etc).